Será que realmente queremos ar puro, uma vida sem vendavais, um mundo sem aquecimento global, verde preservado, comida saudável, rios e mares limpos, saneamento e saúde?
Há um discurso de consenso: salvar o planeta! Mas também há um problema de consenso: para que isso aconteça, é preciso que, individual, nacional e globalmente, pessoas, Estados e nações abram mão de alguma coisa. Abrir mão, porém, não é perder. É ganhar. Abrir mão de algum conforto não é, necessariamente, uma perda irreparável quando isso significa ganhar saúde, ar puro, qualidade de vida. Precisamos mudar nossa percepção e desconfiar de discursos hegemônicos como aqueles que dizem que a única forma de felicidade é a do consumo e do crescimento.
Todo mundo é ético (ou se diz ético) até que chega a hora de fazer algo de verdade. Ou seja, de abrir mão de algum conforto, de algum lucro, de algum prazer.
O mundo está com os olhos voltados para a Copenhague, o COP15, a tal discussão sobre mudanças climáticas. Para mim, isso é um problema. Olhar demais para lá pode significa olhar de menos para cá. Lutar contra a mudança climática se faz de dentro para fora e de casa para o mundo. E, infelizmente, Santa Catarina coleciona maus exemplos. O código ambiental catarinense, que, além de ser inconstitucional e de ser denunciado na 42ª Sessão das Nações Unidas sobre o Pacto Econômico Social e Cultura, é um ótimo exemplo de que a proteção ambiental é vista como um fardo e de como a ilegalidade deve ser perdoada. Talvez esse seja o preço de ter muito amigo bandido. Essa cultura brasileira de perdoar a todo tempo o ilegal, alimentada, muito, por vários de nossos políticos, nos corrói como cultura e sociedade. Destrua a mata, seja corrupto, sonegue imposto, não pague INSS, faça o que quiser, que o jeitinho brasileiro dará um jeitinho.
Ser ético, além de dar trabalho, é coisa para os outros. O fardo que seja carregado pelos otários, inclusive os otários das futuras gerações.
Outro terrível mau exemplo de Santa Catarina é o Projeto Anitápolis, a tal fosfateira da IFC, que vai destruir reservas de água, mata atlântica, saúde, turismo e uma região que produz alimentos orgânicos.
As pessoas ou são teimosas ou mal-intencionadas ou estúpidas (do ponto de vista de uma ignorância voluntária). Santa Catarina é um dos lugares do planeta que mais sofrerão com as mudanças climáticas e, mesmo assim, apesar dos estudos e evidências (como as de 2008), coleciona políticos, empresários e agricultores que insistem em defender regras que atendam aos interesses exclusivamente econômicos e imediatos. Minha pergunta é: onde essa gente vai gastar suas fortunas, porque nossa civilização, do jeito como a conhecemos, não vai sobreviver a tanta teimosia e má gestão (ou gestão desrespeitosa) dos recursos naturais.
No planeta, nós somos extrativistas. Não produzimos nada, não criamos nada. No máximo, jogamos sementes na terra e muito veneno, mas quem faz o trabalho pesado não somos nós. Alimentamos-nos da capacidade vital de outros seres, como as plantas, a terra e a vida de outros animais. Vivemos como parasitas consumindo o planeta e outras vidas. Um consumo que muitas vezes é demasiado e nem bem nos faz.
E, por conta disso, em vez de sermos humildes, gratos, delicados e muito agradecidos com aqueles que nos provêm sustento, somos violentos, exploradores e deixamos a cada dia pegadas impactantes, fazendo com que a nossa presença individual por aqui, em um par de décadas, produza apenas uma coisa: lixo. Esse é o resultado da riqueza que tanto nos gaba como civilização: lixo. Nossa Ferrari vai virar lixo, nosso apartamento de cobertura vai virar lixo, nossas joias, roupas, sapatos e bolsas de couro vão virar lixo, nossos desejos são lixo e poluem.
Nossa vida no planeta não traz outra coisa senão dor aos outros seres vivos. Enquanto isso, a vida dos outros nos dá condição de viver a nossa. E, mesmo assim, seguimos achando que vivemos para governar tudo e todos e que nossa espécie ganhou algum alvará divino para fazer o que bem quiser. Precisamos ser gratos. Se queremos salvar o planeta, precisamos, urgentemente, ser respeitosos e gratos pela vida que nos é oferecida a cada dia.
Copenhague só vai dar certo se nós, individualmente, quisermos que dê. Não tem milagre, só tem escolha.
*buglione.blogspot.com
